Curar a criança interior

Todos nós em crianças vivemos acontecimentos emocionalmente intensos, normalmente relacionados, de forma directa ou indirecta, com os nosso pais. Se a criança não for capaz de integrar ou processar de forma saudável esses acontecimentos, ela pode defender-se ou alienar-se da situação, reprimindo as emoções associadas ao momento. Normalmente aquilo que foi uma estratégia de sobrevivência de uma criança pode tornar-se no padrão de comportamento de um adulto.

Se o desenvolvimento da criança foi reprimido, então os seus sentimentos, atitudes e acções podem ser igualmente reprimidos, desencorajados e/ou ignorados, tornando-se num adulto, zangado, magoado e/ou assustado. Nesta situação, o adulto tende a viver e reagir aos acontecimentos da vida de forma automática, condicionado pela criança interior magoada, traumatizada. A vida é vivida, não no presente mas no passado e regulada pelos sentimentos que foram vividos pela criança.

De facto podemos estar a falar não de uma criança interior mas de várias, que em diferentes idades “congelou” diferentes percepções da vida, diferentes atitudes e convicções.

A criança interior magoada pode contaminar o adulto e este ter tendência a um padrão de comportamento doentio, irracional, generalista ou negativo. Os pensamentos deste adulto podem ser de condenação de si próprio, dos outros e do mundo em geral.

Como forma de compensar as faltas da família a criança pode ainda assumir papéis tais como: “o cuidador”, “o agressivo”, “a vítima”, “o perfeccionista”, “o rebelde”, e tudo isto acontece a um nível inconsciente, mantendo-os durante toda a sua vida adulta.

Para satisfazer as necessidades da família a criança deixa de cuidar de si própria, mantendo o “sistema” familiar mas descorando as suas verdadeiras potencialidades. A criança cresce com emoções e comportamentos reprimidos e os seus desejos e vontades são esquecidos, transformando-os em necessidades inconscientes que se repetem ao longo da vida. Estas necessidades e emoções reprimidas, não desaparecem, são “energias” que se mantêm ao longo da vida, expressando-se de forma desadequada, projectando-se para fora ou para dentro da pessoa.

Para fora, expressando-se através de atitudes inconscientes ou evitando, conscientemente, emoções perturbadoras tranformado-se por vezes em comportamentos disfuncionais ou doentios como: agressividade, birras, rebeldia desadequada ou promiscuidade sem prazer.

Para dentro, provocando doença ou mau estar físico, que podem mesmo somatizar-se em: desordens gastrointestinais, problemas de pele, cancro ou doenças autoimunes.

Todos nós, de uma forma um de outra, com mais ou menos intensidade adoptamos estratégias deste tipo. Os acontecimentos que criaram estes padrões podem até ter sido coisas muito simples e inofensivas mas aos olhos da criança que é muito sensível ao meio exterior foram suficientes para programar determinada estratégia.

Em hipnoterapia um dos métodos terapêuticos utilizados é o Reparenting, que significa tornar-se no pai/mãe carinhoso da sua criança interior. O adulto aprende a amar a sua criança interior, é convidado a reconhecer os seus conflitos interiores e a tornar-se consciente dos seus próprios sentimentos.

Como pai/mãe carinhoso vai aprender a lidar correctamente com a sua criança interior; como teria um dialogo com ela, como escutaria essa criança, como tomaria atitudes em defesa dessa criança, como a apoiaria, como reforçaria as capacidades dessa criança em lidar com as situações e como reforçaria o valor dessa criança.

Depois de induzida a hipnose regressiva, a pessoa é convidada a encontrar-se com a sua criança interior e de forma segura e por vezes utilizando metáforas, procura-se reconciliar as partes, através de um amor e uma aceitação incondicional.

Uma vez integradas as emoções reprimidas e os acontecimentos traumatizantes estes deixam de ter uma função de defesa e os padrões comportamentais desadequados tendem a desaparecer, melhorando significativamente a vida do adulto.

Na prática desaparecem os comportamentos inconscientes e reactivos, bem como a necessidade de desempenhar papéis que eram de uma criança “congelada” no tempo justamente por não ter tido a capacidade de integrar determinadas experiências emocionalmente.

Na prática a vida torna-se mais plena, com mais sentido, com mais potencial de crescimento e satisfação, com menos desconfiança, menos agressividade, mais compaixão e amor. Com mais felicidade e alegria.

O conceito de “Criança interior” não é novo, as várias escolas de terapia tem conceitos semelhantes com diferentes interpretações. Na Psicosséntese, Robert Assagioli fala de “Subpersonalidades”, na terapia Gestalt, Fritz Perls desenvolveu o conceito de partes dialogando umas com as outras, na Análise Transacional, Eric Berne desenvolveu não só o conceito de criança interior como o de adulto interior e de pai interior, na terapia Comportamental Racional Emotiva, Albert Ellis fala acerca de convicções.

Grato,
Rui Mira

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Se tem solução não é problema. Se não tem solução nunca foi problema. Mais do que uma frase está é uma forma de vida. Quando integramos esta frase na nossa vida reduzimos em muito os níveis de stress, que como sabemos são muitas vezes fonte de doenças que se manifestam de diferentes formas dependendo de pessoa para pessoa. Se tem solução, resolve-se. Se não tem solução, não é um problema mas sim um facto.

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